A teoria da dominância canina nasceu de estudos realizados com lobos em cativeiro nas décadas de 1930 e 1940 pelo etólogo Rudolph Schenkel. Ele observou que lobos confinados em espaços artificiais disputavam recursos de forma agressiva, estabelecendo hierarquias claras entre "alfas" e "submissos". Essa observação foi extrapolada para cães domésticos, criando a narrativa de que todo cão tenta "dominar" seu tutor.
O problema central é que lobos em cativeiro se comportam de forma radicalmente diferente de lobos na natureza. Na vida selvagem, as alcateias são formadas por famílias — pais e filhotes — e não por indivíduos aleatórios competindo por poder. O próprio Mech publicou em 1999 o artigo "Alpha Status, Dominance, and Division of Labor in Wolf Packs", reconhecendo que o conceito de "alfa" era um artefato do cativeiro.
Quando aplicamos essa lógica equivocada aos cães, o resultado é ainda mais distorcido. Cães domésticos não são lobos. Eles passaram por mais de 15 mil anos de domesticação, desenvolvendo habilidades sociais únicas voltadas para a cooperação com humanos. Estudos de Brian Hare, da Duke University, demonstram que cães evoluíram para ler sinais humanos e colaborar, não para disputar liderança.
